2122, 17 de novembro as 13:17
Em uma fria manha de inverno em que o azul celeste era azul anil, de um inverno que começava e terminava em si mesmo em um ciclo infinito, os homens perseveravam.
O planeta cristalizava-se em seu frio invernal, onde todas as manhãs eram azuladas e solitárias. Não havia verões para o pequeno resquício da humanidade. O calor que faltava no ar daquela atmosfera inundava e contaminava os corações humanos.
Um Inverno eterno. Assim diziam os exobiólogos. Planeta de gelo. Frio e áspero. Inclemente ao despreparado espírito do homem enlaçado na comodidade. Uma forja fria e bruta de um caráter quente e afiado. Jornada que molda e dilapida a alma do homem.
E lá estavam colonos. Poderíamos olhar-los de vários ângulos e ainda assim não se harmonizavam com a paisagem estéril. Sempre chegamos a mesma conclusão, pareciam ser aquilo que realmente o eram: alienígenas. Criaturas vindas de um mundo muito diferente, onde o gelo e a neve era uma exceção e não a regra.
Naquela paisagem pintada à mão pelos deuses do inverno, um homem se movia de forma estranha pela neve. O seu nome causava comoção e calafrios; Marcus Greco.
Suas botas fincavam-se na neve gerando um som hipnótico. Cada passo que dava trazia a estranha certeza de que algo estava errado. A linha traçada por seus paços seguia um caminho errático, zonzo, abobalhado. Mas o destino era claro, o único agrupamento humano na insólita paisagem. Um acampamento nas proximidades da linha do horizonte.
O olhar de Greco era estranho mesmo para quem não o conhecesse. Um homem vivido e calejado diria ser o olhar do desespero, do vazio. Via-se na forma como seus olhos margeavam-se por quase imperceptíveis filetes de lagrimas, o nascimento de uma dor maior que sua capacidade de suportá-la.
A respiração oscilava beirando rebentar em soluços, vez por outra a voz do desespero escapava junto com ar liberado de seus pulmões. Um peso invisível curvava as costas. Andando nitidamente sem qualquer vontade. Tropeçando onde nada havia para tropeçar.
Em sua mente pensamentos corriam freneticamente. Raios ricocheteando. Flashes de imagens. Sons e lembranças. Um passado esquecido e abandonado voltava à superfície apenas para desaparecer de vez. Morto, exterminado e ceifado sem permissão ou consentimento.
Uma parte sua sempre soube do destino inevitável. Quando partiu em sua jornada, pressentia que jamais voltaria ou veria seus familiares novamente. Era duro, um exercício de desapego. Mas acreditou que mesmo de longe seus amados continuariam bem. Agora não havia consolo. Obliterados.
Os motivos de tudo aquilo lhe escapavam como fumaça escoando pelos dedos. A profundidade das implicações gradualmente se infiltrava em sua consciência. Hora menos hora teria de saber, era sua função.
Um pensamento se repetia de forma desesperada;
“Como que vou falar e explicar, quando nem mesmo eu consigo acreditar! Em nome de tudo que existia como algo assim pode ser possível?”
Embora a paisagem desolada, coberta de neve, fosse a casa de muitos humanos nos ultimo meses, ainda era um lugar estranho. Greco vivera sua vida em um país verdejante e quente.
Mas aquele era um planeta de neve onde não havia nevascas. Tudo era estático neste planeta estranho. As poderosas ventanias erguiam cortinas de neve que rodopiavam rente ao solo, mas a chuva e a nevasca eram tão raras como as nuvens que as precediam.
Com a chegada do homem surgia vida. Menos de três meses e já começaram a mudar a rocha de gelo. Eram desbravadores. Recém chegados a um novo mundo. Os melhores da espécie, como deveriam ser.
Fabricas geradoras de calor eram erguidas por todo planeta, aos poucos elevando o vapor contido na atmosfera. O aumento da temperatura era apenas o começo da transformação daquele planeta em um lar verdejante.
Mas no momento a fria solidão do planeta era um mórbido pano de fundo para uma historia de tragédia. A altiva raça humana esmagada pelos punhos de um destino incompreensível. Estavam sitiados pelo vazio e exilados no desconhecido.
O primeiro planeta explorado pelo homem fora do sistema solar. Pelas ironias cósmicas aparentava ser o ultimo. Odim. Batizado em homenagem ao Deus Viking, antigo povo desbravador. Guerreiros valentes que morriam pela espada. Povo dos mares de gelo do norte, com frágeis barcos de madeira realizando façanhas lendárias. Pioneiros e desbravadores.
Lembrava a missão daqueles que embarcaram na jornada de colonização.
As pernas de Greco traçavam nós, cambaleando e se retorcendo com o peso invisível da verdade. Os novos fatos que descobrira a pouco o derrubou mais que emocionalmente, forçando-o a cair de joelhos.
Os braços tensionados com músculos repuxado, fibra-a-fibra, evidenciava seu estresse. Greco elevou o queixo e cravou os olhos no céu, recriminando os deuses pela desgraça de seu povo.
Os olhos negros encaravam o enigmático e profundo azul celeste. De uma forma infantil esperava respostas de deuses que nem ao menos acreditava existir. Mas não havia respostas. O desespero crescia e o dominava, como uma rede que apertava cada vez mais força.
Como poucas vezes em sua vida, levou as mãos ao rosto e libertou finalmente o soluço desconsolado. O impetuoso e áspero Capitão caia e chorava. Lagrimas vertiam apenas para congelar no momento em que caiam em direção ao solo.
Não poderia desistir. Não agora, depois de tanto sacrifício. Deveria tentar. Toda vida em seu intimo soubera estar destinado a algo maior, portador de grande fardo. Agora não havia duvidas. Deveria abraçar seu destino e render-se ao dever. Negar isto seria amaldiçoar não a si próprio. O resto de chance para humanidade se esvairia facilmente, sem um pulso firme, determinado.
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